Festa do Traje
romaria d’agonia - 22 agosto 2009
Forte de S. tiago da barra - Viana do Castelo
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O TRAJE DE TRABALHO
O mercado semanal de Viana
Já falamos do Mercado Semanal, dos relatos que temos mais antigos e que, talvez, nos forneçam a melhor informação sobre o trajar de Viana! Também, e sempre estivemos de acordo - o primeiro grande repórter que desenvolveu uma verdadeira atitude pedagógica ligada a um excepcional poder de observação e análise foi Ramalho Ortigão ao deixar-nos essa aprimorada descrição in “As Farpas” (Setembro 1885):”
O mercado semanal em Viana celebra-se às sextas-feiras, num largo lanço de estrada macadamizada, à beira da água ao pé do jardim (….) as vestimentas das vendedoras, conservando aqui excepcionalmente, toda a pureza do costume tradicional, são as mais pitorescas, as mais graciosas, as mais variadas de cor e de linha, as mais felizmente achadas
para fazer realçar a graça das formas, a ondulação dos movimentos, o mimo da expressão feminil.
As saias curtas, descobrindo a base piramidal da perna nua, são de pano carmesim ou de sirguilha, de uma infnita variedade de combinações de lã urdida em estopa, em linho e em algodão: brancas às listras pretas, castanhas ou azuis; cinzentas às riscas vermelhas, azuis, castanhas ou brancas, numa enorme diversidade de tons. Camisas de grosso linho alvíssimo, mangas largas, bordadas em entremeios abertos no mesmo linho sobre os ombros, bordadas ainda a linha de cores, à russa, nos canhões chatos, muito justas ao pulso. Grandes colarinhos redondos, de renda ou de linho, com barra de folho ou barra de renda.
O colete muito curto, redondo na cinta, levemente espartilhado, vermelho, cinzento ou preto, sempre guarnecido de uma larga barra de veludo preto lavrado no estilo de Utrecht, ordinariamente pespontado de ouro ou de prata. Os cós das saias são invariavelmente de linho branco, com meio palmo de largura, em pregas miudíssimas presas aos
debruns encarnados, pretos ou azuis. Os aventais estreitinhos e curtos, encabeçados em funéus de linho bordado a cores, são de sirguilha com soberbos bordados a ponto de tapete, nos mais ricos tons de escarlate e de azul persa. Brincos largos de fligrana de ouro. Colares de contas de ouro liso. Algibeiras pendentes da cintura a um lado, em ampla châtelaine de pano, com aplicações policromas guarnecidas de lantejoulas.
Os lenços da cabeça, em toucado de diversas formas, já em grande laço como na Alsácia, fazendo diadema sobre os cabelos apartados ao meio, já achatados no alto da cabeça, à semelhança do que usam as mulheres dos Apeninos, já envolvendo o rolo da trança sobre a nuca e caindo em duas pontas entre as espáduas, são ordinariamente vermelhos, de um magnífco vermelho ardente, de púrpura, cor da for dos cactos. (Ramalho Ortigão aponta à pressa quatro tipos que se destacavam aos seus olhos com mais particular relevo: uma velha, sessenta a setenta anos, rija e direita; jovem viúva, tecedeira em Cardielos, vende pano; outra tecedeira, rapariga de Santa Marta, busto cheio; outra da Meadela,
vinte e cinco anos, alta, delicada de uma palidez quente).
Balcão Semanal
Um outro apontamento que recolhemos da autoria de Joaquim Leitão foi extraído do Livro d’Ouro da primeira viagem de Sua Majesta-de El – Rei D. Manuel II ao norte de Portugal, numa Edição de Carlos Pereira Cardoso, Foz do Douro 1909, publicada no 147º aniversário da elevação de Viana a cidade, pela revista Limia:“A feira D’Agonia é o pitoresco balcão semanal onde a laboriosa vianesa vai trocar a moeda os produtos da sua tão variada indústria caseira. Sem a protecção de um tejadilho de barraca ou de uma umbela, à luz do sol, à luz do dia, com um desembaraço honesto, ela acampa em flas paralelas, marcadas pelos cestos da mercancia, deixando os espaços intermédios ao comprador, e graciosamente de pé, ela vende os linhos que a sua mão, agora ataviada no recato do punho justo de camisa, cortou do linhal, as rendas de bilros que foram o seu brinquedo,a incomparável manteiga que as fábricas jamais conseguirão imitar, a sirguilha cuja lã ela mesmo cardou e acompanhou desde o vélio dosseus carneirinhos.
Esta vendedeira do Campo da Agonia é uma graça. O que amulher tem de saudável estética, de mimo natural, de provocatória pureza, tudo a vianesa resume no seu busto fornido e bem modelado,na beleza quente da sua boca e dos seus olhos, no arrebique do seuvestuário cheio de cor, gárrula, jubilosa, elegante e calma. Corpo que nunca se contrafez entre as barbas de um espartilho, e nunca se valeudo artifcio do fgurino, ela é todavia, é por isso mesmo um modelo de escultura peninsular, no que ela reúne de mais belo e da mais forte,sem contudo apresentar a masculinidade de muita minhota a quem oscarrêgos e as canseiras endureceram a musculatura e o sol das cavas enrugou cedo a sua cútis.
Esse costume tradicional da vianesa, então, tem conservado todaa verdade, conservando assim a mulher, a graça das formas que ocoletinho curto realça, que o colarinho de gola afemina, que a saia curta engrandece, que a cor do lenço, da algibeira e da saia afogueiam, destacando-lhe o louro dos cabelos, a brancura dos cabelos e datês. Tudo quanto ela veste, recende a esmero e a frescura: saia curta –branca, listrada de preto, castanho ou azul, cinzenta às riscas, escarlates,azuis, brancas ou castanhas, em sirguilha, urdida em lã, em algodãoou em estopa (…).
A camisa, é o grosso, o recendente linho que ela espadelou e teceunuma sadia e honesta ocupação da mulher caseira e canseirosa. E todoesse linho grosseiro é aberto em entremeios, nas ombreiras, nas mangasou bordados a cores, nos punhos pudicamente justos, no mesmo avaropudor do pescoço que o colarinho em gorgête de rendas ou de folhos
esconde iluminando o mento, realçando a penugem loura ou azeviche da nuca. O colete, desenhando-se levemente o busto, cinzento, preto ou vermelho, largamente debruado, a veludo lavrado, com um pespontoa prata ou dourado, é também curto, projectando o seio, desvendando a cinta fornida e bem feita. Cós das saias de linho branco, às pregas,aventais de boneca em sirguilha deliciosamente bordados a ponto de tapete e a característica algibeira, em coração, pendente da ilharga,lantejoulada como escarcela de castelã.
Toucada em diadema, em trança ou alpendrado em prato contra o sol, pelo lenço de um vermelho ardente, a mulher de Viana é dos pés a cabeça uma mancha rubra de papoila, uma aleluia de carnes, uma deusa pagã, envolta num incêndio de sol que houvesse deitado fogo a um esteval numa candente tarde alentejana. Para que nada falte a engraçar esse modelo de beleza nacional, o adorno e a jóia lá estão a completar-lhe a tradição da vestimenta: os brincos da portuguesíssima fligrana, o colar de grandes contas de ouro polido, sóbrio, forte como elas. Traje bem achado para lhe realçar as formas, sem lhe comprometer a graça nem o ritmo do movimento, com ele vai às romarias, com ele vai à missa paroquial, com ele vai às festas e com ele vai às feiras em dias de trabalho, vender o seu linho ou as suas rendas.
Bem merece a vianesa que tão demoradamente a miremos, pois ela sintetiza toda a prosperidade mediana mas estável, toda a vida casta dos campos de Viana.”
Finalmente, um outro apontamento, que nos chega de Manuel de Boaventura (in Festa do Traje, Agosto de 1960). Falando do traje “à
vianesa”, diz o seguinte:
“A lavradeira de Viana é a que melhor veste em todo o País- po-demos mesmo dizer em todo o Mundo. Acresce que, por via de regra, é formosa e de linhas esbeltas. Depois outra circunstância, e esta, então inculcando melhor, erguendo mais alto o valor da vianesa proclamando quase e sempre a sua independência: é que todo o seu vestuário foi confeccionado pelas fnas mãos donde tão belas maravilhas saem.”
As Classifcações do Traje
Haverá outros depoimentos interessantes mas estes, com uma diferença de vinte e quatro anos (1885/1909) dizem-nos que, na feira de Viana, já aparece o” traje à vianesa” nas designações a que comum-mente chamamos de traje da feira, de domingar e de lavradeira.
Os primeiros autores a abordar este assunto e a procurar um mo-tivo para o aparecimento do traje “à vianesa” são: Cláudio Basto (in “Do Traje à vianesa em geral e do traje de Affe em especial”- 1930); Tenente Afonso do Paço (in Revista Lusitana, “O traje à lavradeira” - De Outeiro a Perre em especial e das outras aldeias em geral-1930) e José Rosa Araújo (In Arquivo do Alto Minho, “Algumas notas sobre o traje popular do Baixo Lima”- 1934).
Cláudio Basto, na sua lapidar classifcação, que ainda hoje se man-tém e cujas diferenças defniu ao afrmar: “Se dos trajes à lavradeira o de Affe é o mais simples; o vermelho de Santa Marta de Portuzelo é o mais complexo na riqueza de ornatos e de cores; e o de Areosa, o mais vermelho e o mais “conservado” dos trajes “à vianesa”.
O Tenente Afonso do Paço considera que “nem todas as aldeias vestem de maneira igual. Há entre umas e outras pequenas nuances que giram à volta da aldeia padrão, da aldeia fgurino. Santa Marta do lado do interior, mirando-se garrida e saltitante nas águas preguiçosas do Lima, dita a moda do seu rancho a Meadela e Serreleis, Perre e Outeiro. Afife, à beira mar, debruçada sobre a verdejante veiga a olhar absorta a imensidão do Atlântico, serve de modelo a Carreço e Areosa. Ainda, sobre algumas delas, principalmente Meadela e Areosa, têm infuência pela proximidade dos costumes citadinos de Viana.” Na sua divisão do traje, classifca, como se faz “entre as lavradeiras”, em:
Vestido preto; •
Vestido vermelho; •
Vestido dos domingos; •
Vestido da semana; •
Vestido de dó. •
Vestido da semana
Vulgarmente conhecido como traje da erva ou fato da erva, traje de ir ao monte, de ir ao mato, ou mesmo o fato do mato, com saia de forro aos quadrados pretos e brancos, corpo com riscas verticais na mesma cor, avental de lã; camisa de linho grosso; sem bordados; colete de barra preta e tecido de fantasia sem efeitos; chapéu de palha na cabeça ou lenço vermelho com ramagens; socos, sem meias ou mesmo descalça, tem variantes nas sargaceiras sejam as de Affe, ou de Castelo de Neiva (branqueta). Assim o traje de trabalho da sargaceira de Affe, usa-se com saia de estopa da cor branca, com forro de riscado mais estreito do que o normal nas demais saias, aos quadrados azuis e brancos.
O Guião:
Alberto Rego; Francisco Sampaio; José Escaleira
colete, de barra preta e corpo de riscado forido sem efeitos; camisa de linho branco sem bordados e com decote; lenço de peito “franjado” de campo vermelho; calçam alpergatas brancas, acalcanhadas e sem meias; chapéu de palha de aba larga e, sobre este uma trouxa de roupa (composta de saia “branquinha” e avental usados com o traje de “ir à erva” para vestir depois da apanha do sargaço que, em Affe, também se designa por “função” e que se iniciava ao romper do dia quando o “quadrilheiro” dos medos gritando, dizia “a ele”. Ao ombro as sargaceiras transportam o redenho. Também se designa este traje como “fato do mar”. O traje do sargaceiro de Castelo de Neiva compõe-se de uma indumentária muito simples: branqueta – fazenda que não transmite ao corpo a sensação de “molhado” e daí que, quer o homem, quer a mulher, se metam ao mar desprovidos de quaisquer outras peças de vestuário – espécie de casaco comprido (chega aos joelhos),cingida ao peito, apertada na cintura por uma correia que anda solta com roda. Na cabeça, um “sueste” (chapéu de oleado – infuência dos bacalhoeiros da Terra Nova), que substituiu a característica carapuça de lã. Andam descalços. (Este traje é semelhante ao “sagum” romano e tende a desaparecer). A mulher usa uma saia pouco rodada e uma casaca que aperta ao lado com botões, confeccionadas do mesmo tipo da fazenda dos homens, “a branqueta”. Andam descalças, e por vezes usam na cabeça o mesmo chapéu de oleado dos homens “sueste”.
Por seu turno, José Rosa Araújo, diz o seguinte: “ O fato de gala deriva hoje, como no passado, do fato de trabalho, aprimorado numa primeira fase para o do peditório, depois com mais requinte de bordados e toques de garridismo que o tempo e a fantasia foram acrescentando a tornar- se no que foi hoje o de gala”, somos tentados a chamar-lhe mais de “lavradeira”, de “festa”, de “luxo”ou “fato da moda”.
O Traje de trabalho
Também duas descrições de como era visto o traje de trabalho, adrede designado pelo Tenente Afonso do Paço como vestido da semana e o próprio José Rosa Araújo quando o classifca como sendo o “traje de cotio” e, como tal, anterior ao do “peditório”.
Cláudio Basto põe o dedo na ferida quando em 1923 já dizia. “ Aparecem, às vezes, em estampas, raparigas a trabalhar com os seus vistosos e caríssimos trajes de Domingo e dias de Festa…Isso é apenas das estampas que, na vida real, esta gente económica e mais não pode ser, veste a pior roupa que tem para labutar de sol a sol…”Leite de Vasconcelos (Etnografa Portuguesa, Vol VI), quando transcreve um estudo de um aluno da Faculdade de Letras de Lisboa- Júlio Pereira Pinto Júnior, datado de 1917: “O traje de semana é po-
bríssimo… compõe-se de saia de serguilha tecida de lã, avental igual, colete (espartilho) redondo com quatro espigões de cana à frente, com uma cinta de veludo guarnecidas com lãs de várias cores e algumas lantejoulas; camisa de linho e um saiote branco com barras de chita vermelha aparecendo por espaços remendados de várias cores; lenços de chitaordinário ao pescoço e idêntico na cabeça; pequenas argolas e um fo de contas; andam descalças ou calçam socos (tamancos), já usados”.
Sem comentários aos dois textos publicados, constata-se que o traje da semana, de cotio, de trabalho, embora sendo de uso comum e diário é considerado pelos autores como um traje pobríssimo. Se estivermos, quiçá, com atenção à descrição de alguns dos trajes que apareciam no mercado semanal de Viana (aparecem ainda), poder-se-iam equiparar aos mencionados e, como tal,não seria um traje de cotio “pobríssimo”(vale o contraditório), mas tão simplesmente, um traje de feirar e bem bonito!
Temos uma outra opinião: o traje à “lavradeira” nasceu de um tronco comum (o traje de trabalho), adaptado às lides domésticas e do campo e que se usava, quer na baixa Ribeira Lima, quer no litoral, terras comunitárias que tinham e têm, ainda, condicionantes socioeconómicas e culturais distintas. Assim, Affe, Carreço e Areosa, terras laboriosas mas menos fartas, viam os seus “artistas” emigrarem bem cedo para revolucionarem a arte do estuque em Portugal, fcando a mulher responsável por toda a indústria e economia domésticas. Simplesmente, com o marido fora, os flhos agarrados à saias, a matriarca não via sobejar-lhe o tempo para satisfazer as necessidades materiais, sociais e estéticas que o traje exigia, pese a importância económica deste e que bem justifcaria os cuidados e os desvelos que se lhe dão. Daí a simplicidade em Affe e, por isso, o “mais belo”, e o mais vermelho e “mais conservado,” em Areosa. Nas terras de Santa Marta, Perre, Outeiro, Meadela, Serreleis, o homem não emigrava. Ficou ligado à terra, aos seus vinhedos, às suas courelas, ao linho galego. O que permitiu à mulher ter uma economia e indústria no lar diferente, benefciando de mais tempo, mais dinheiro, para transformar a matéria-prima em artefactos adequados às exigências de qualidade e de composição decorativa que o traje merecia. Desta forma, poder-se-ia afrmar que, em Santa Marta, Perre, Outeiro, Meadela, o folclore do trabalho doméstico abrangeria todas as operações (o linho passa muitos tormentos, diz o povo: semeado, colhido, ripado, alagado, seco, masgado, moído, espadelado, restelado, assedado, fado), para só terminar na urdidura, no tear e na tecelagem, com a animação dos serões e do bragal, encontro de muita juventude, já que se tratam de festas de partilha o que, por razões económicas e sociais já expostas, estava vedado ao litoral vianês. Eis a explicação que encontramos para o comentário de Claudio Basto (overmelho de Santa Marta de Portuzelo é o mais completo na riqueza de ornatos e de cores). Por isso, e a completar, voltamos a afrmar o seguinte: foi o traje de trabalho que, paulatinamente, e sempre com a criatividade e inovação de verdadeiros actores locais, autênticos “stake-holders” (Associação dos Grupos Folclóricos, Confraria da Concertina, Cantares ao Desafo, Bordadeiras e Tecedeiras), soube aprimorar a simplicidade e a sobriedade de coloridos e ornatos, chegando a atingir o que se considera já um “traje perfeito” representativo da “identidade colectiva”, um traje “invariante e mítico” e que se costuma designar como “traje à lavradeira”. Aliás neste” traje setecentista e com decora-ção barroca – a sobrecarga ornamental atesta e bem a intencionalidade de uma encenação do espectáculo “(Madalena Vaz Teixeira, in “Trajes Míticos da Cultura Regional”).
Direi mais: o “vestido da semana” veio infuenciar os trajes de meia senhora e de mordoma, “cobiçados” pelas lavradeiras às “senhoras de Viana,” mas com uma linha evolutiva e de
adaptação próprias (in Alto Minho Região de Turismo, Ed. RTAM, 1986).
Francisco Sampaio